Um a cada três cearenses com menos de 60 anos mortos pela Covid-19 não tinha fatores de risco


Especialista aponta que ‘Tempestade de Citocinas’ é uma das razões pelo número de óbitos em pessoas sem condições pré-existentes. Uma a cada três pessoas mortas pela Covid-19 com menos de 60 anos no Ceará não tinha fatores de risco
Divulgação/Governo do Estado
Uma a cada três pessoas com menos de 60 anos, que morreu em decorrência da Covid-19 no Estado, não fazia parte de nenhum grupo de risco da nova infecção viral, é o que apontam os dados da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa). Ou seja, além de não serem idosas, essas vítimas não apresentavam doenças crônicas, não eram puérperas ou estavam grávidas.
Até o dia 14 de julho, foram contabilizadas 1.530 mortes de cearenses com idades inferiores a 60 anos, 538 delas não tinham qualquer fator de risco. Em relação à faixa etária de pessoas nas mesmas condições, 255 delas tinham entre 50 e 59 anos; 150 apresentavam idades entre 40 e 49 anos; 90 tinham de 30 a 39 anos; e 22, de 20 a 29 anos.
Ricardo Halley, de 42 anos, é uma das vítimas a integrar essa estimativa. O administrador atuava como diretor financeiro de uma clínica de vacinação. Foram mais de 30 dias entre uma unidade de saúde e outra, saindo de um tratamento para iniciar um novo contra a doença.
No 1º dia de maio, ele faleceu. Três dias antes, enviou áudio ao irmão Eduardo Manoel Halley, de 45 anos. “Duda, vou ser entubado. Não sei o que vai acontecer, cuida das pessoas aí pra mim”, disse Ricardo. Até hoje, aquelas palavras não saíram da cabeça de Eduardo. “Sou uma pessoa tranquila em relação a saber que todos nós vamos morrer. Mas o sentimento é de raiva, e não é raiva pela morte, não. É por ter sido por uma coisa tão pequena. Eu perdi um irmão por algo que eu não sei nem o que é”, desabafa.
Outros dados
Até o dia 14 de julho, outras 992 pessoas não idosas, mas com doenças preexistentes, também faleceram por causa da doença, conforme a Sesa. Os dados apontam que, desses pacientes que apresentavam fatores de risco para a Covid-19, 58% possuíam cardiopatia e 43,3% tinham diabetes mellitus.
Embora o número de óbitos seja maior no Ceará em decorrência da grande quantidade de vítimas idosas que o vírus causou, a contaminação se espalha mais fortemente entre os adultos.
Entre 1º e 16 de julho, cerca de 69% de todas as pessoas com testagem positiva para a Covid-19 tinham entre 20 e 59 anos. Em maio, no pico da pandemia no Estado, esse índice era de aproximadamente 80%.
Nessa quinta-feira (16), o Ceará alcançou a marca de 144.058 casos confirmados de infecção pelo novo coronavírus. Os dados da Secretaria da Saúde do Estado (Sesa) apontam também que 7.139 pessoas perderam a vida em decorrência da doença e a taxa de letalidade se mantém em 5%.
‘Tempestade de Citocinas’
A infectologista Mônica Façanha avalia que a ciência já sabe que a Covid-19 atinge em demasia os mais velhos e as pessoas com doenças crônicas preexistentes mesmo com estudos sobre a doença ainda no início. “Talvez porque elas tenham resistência menor, reserva menor para resposta à infecção. Agora, porque 80% das pessoas não vão sentir nada ou vão sentir muito pouco, a gente ainda não tem essa resposta”, afirma.
Uma das possíveis justificativas para alguns casos graves e óbitos em pessoas que não façam parte do grupo de risco, segundo a infectologista, é a chamada “Tempestade de Citocinas”. O termo se refere à uma reação hiper inflamatória do organismo ao vírus e só foi descoberto pela ciência há duas décadas durante outras epidemias, como a da Sars (2002-2003) e da Mers (2012).
“Uma das formas de controle de infecção é o nosso organismo fazer uma resposta inflamatória. Quando a gente se machuca, ficar vermelho, ficar quente são formas que o organismo tem de se proteger. Mas se a gente tem uma resposta muito exagerada, ela pode ser maior do que a agressão que estamos sentindo”, explica Mônica Façanha.
Segundo a infectologista, isso ocorre em alguns casos de dengue, quando há infecção sequencial por outro subtipo, por exemplo. “Mas, na Covid, ainda não está claro porque essa resposta exagerada, ao invés de ajudar o paciente, passa a agredi-lo”, pontua a médica.
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Foto: Infografia/G1
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