Depois de uma deputada federal mandar matar o marido, incêndios no Pantanal e uma mulher negra violentada por policiais e, tudo isso e muito mais, num momento de pandemia por um vírus letal a nos assolar, a sensação que temos a de que estamos totalmente desamparados e à mercê do caos. Contudo, comprovando a Lei de Murphy de que não há nada pior que não possa ficar ainda pior, quedo-me a refletir no futuro que nos espera.
Nesse diapasão, tem passado, um tanto quanto desapercebido, o número demasiado de jovens assassinados pelo crime organizado. É lamentável, como é dito nas gírias do crime, que “a fila anda”, levando nossa juventude para dois caminhos axiomáticos da vida marginal: presídio ou cemitério. Os presídios estão abarrotados e os cemitérios são poucos.
Dentre tantos fatores que permeiam esta tão grave problemática social, debruçando-se nessa imensa parcela de nosso povo (os jovens entre 16 e 29 anos), compelida a acreditar que a tão desejada, e sonhada, realização, ou felicidade, só possa ser alcançada no que é tangível e material, ou seja, pela obtenção ou inserção de padrões de consumo, vem se constituindo num dos mais relevantes pontos desta hecatombe. É uma práxis social associar-se o sentido da vida – se é que há um sentido apriorístico -, a acumulação de de bens e/ou status, a fim de que se tenha o indispensável sentimento de pertecimento social, como pontuou sabiamente, o sociólogo francês, Pierre Bourdieu. Não obstante, banidos da cultura, do esporte, do lazer, das relações sociais saudáveis, da condição de emprego e renda, da saúde e da educação, sem vida social, nossos jovens não têm conseguido e subsistir às pressões da vida bandida.
A solução é difícil, não obstante, se factível. Partido-se do princípio de que, visto não poderem possuir uma identidade de pertencimento social na vida ordeira, o caminho largo do crime tem sido trilhado por milhares de jovens assediados pela sexualidade precoce, poder bélico, pertencimento de grupo, prazeres de orgias, entorpecimento de frustrações pelas drogas; tudo funcionando como válvulas de escape para a angústia existencial de almejar ser e ter, e não encontrar na ordem posta (mercantil) meios para isso. A violência é, pois, fruto de uma significação marginalizadora da sociedade, por ideologias sóciopolíticas e mercadológicas. O remédio para tal mazela são as medidas de ressignificação ou deconstrução e reconstrução do modelo social dominante.
ODAILSON DA SILVA
PSICANALISTA
E ESCRITOR
O post Vida bandida apareceu primeiro em O Estado CE.
