VAR entre a cruz e a espada neste Campeonato Brasileiro

No Campeonato Brasileiro deste ano, a cada rodada jogada o VAR se torna o personagem de maior destaque em, pelo menos, um dos jogos. Tendo como objetivo principal auxiliar a arbitragem nas decisões mais complexas das partidas, a ferramenta vem sendo questionada constantemente pelos clubes, atletas, torcedores e jornalistas.

Os acertos precisos e milimétricos do equipamento são ofuscados pela demora no momento de revisão na cabine e por decisões questionáveis e inconstantes dos árbitros em campo.

As circunstâncias fazem com que todas as atenções se voltem para as resoluções que envolvem o apoio da tecnologia, colocando em “cheque”, assim, a funcionalidade do VAR e o preparo de quem o opera. Analisando os primeiros 54 jogos disputados pelo Brasileirão deste ano, houve um crescimento de 68% na quantidade de vezes em que os confrontos foram paralisados para uma verificação do assistente de vídeo em relação ao ano passado, segundo publicação do site globoesporte.com. Em média, o tempo gasto nessas interrupções caiu 20% (de 1m40s para 1m20s), no entanto, houve um aumento de 36% no tempo total de paralisação para a consulta com o árbitro de vídeo (de 139 minutos em 2019 saltou para 189 minutos em 2020), devido o crescimento na quantidade de intervenções nesta temporada.

Em declarações recentes ao Estadão, o chefe de arbitragem da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Leonardo Gaciba falou sobre o alto tempo de análise que as verificações vem tendo. “Aconteceram dois lances de altíssimo grau de dificuldade. Acredito que possamos evoluir em relação ao tempo de análise da jogada até chegarmos a uma conclusão. Foram lances muito ajustados. Apenas com uma ferramenta muito precisa poderíamos chegar a essa marcação. Durante as cinco primeiras rodadas do Campeonato Brasileiro, o tempo do VAR não foi muito levado em conta e esse é seu grande sentido. Um jogo com uma demora maior acaba passando essa sensação de que a ferramenta é demorada. No entanto, no bojo do campeonato, as análises estão sendo feitas em um tempo adequado, dentro de uma média internacional”, declarou o ex-árbitro.

Ainda sobre o VAR, Gaciba falou sobre a precisão da ferramenta. “Ninguém está discutindo acertos e erros. Isso é muito bom. A partir do momento que temos de evoluir em tempo, isso é espetacular. As decisões estão sendo corretas e para isso o VAR foi criado. Se conseguir ser rápido e preciso, ótimo. O VAR é uma espécie de ambulância, ele só é chamado em caso de emergência. Se ele conseguir atender essa emergência rapidamente e conseguir salvar o socorrido, maravilhoso. Agora, se ele demorar para socorrer e mesmo assim salvar a vítima, também é válido. O que não pode acontecer é ser rápido e errar ou ser demorado e errar, o que é pior ainda”, concluiu.

Mudança em campo
Uma das maiores causadoras de insatisfação nas interrupções, é a demora exaustiva na tomada de decisão. Os jogos ficam parados durante um longo período, esfriando os jogadores e quando, enfim, retorna, já não tem a mesma intensidade. Outro ponto incômodo é a falta de esclarecimento dos juízes no momento de revisão. Atletas, comissão técnica e quem assiste à partida têm dificuldade em entender o que, de fato, está sendo avaliado, o que transforma cada pausa, não óbvia, em um “show” de especulações de todas as partes.

Além do mais, a quantidade de vezes em que o VAR é acionado é excessiva. Frequentemente em lances claros e simples, passíveis de rápida decisão dentro das quatro linhas. São nessas situações que o VAR brasileiro se distancia em relação ao uso no futebol europeu. A diferença central se encontra na preparação de toda a arbitragem para o uso da tecnologia. Por exemplo, na primeira divisão da Liga Inglesa, houve organização e um longo período preparatório. Em contrapartida, no Brasil, o equipamento chegou e rapidamente foi implementado em jogos de campeonatos importantes.

A arbitragem mudou a maneira como lida com as particularidades dos jogos que contam com a ajuda da ferramenta. No ano passado, nas primeiras 54 partidas, 26 decisões foram mudadas em campo. Já este ano, com a mesma quantidade, foram 32 mudanças de decisão, um crescimento de 23%. Ainda assim, a maior alta referente às paradas para assistência do VAR, são nos lances em que as decisões anteriores tomadas pelos árbitros em campo foram mantidas (de 58 paradas avançou para 109, crescimento de 88%), informa a publicação já citada anteriormente. Além disso, até o momento, em nove rodadas do Campeonato Brasileiro, foram anulados 19 gols pela tecnologia de vídeo.

“O número de mudanças de decisão por erros claros é uma das formas para avaliar o desempenho da arbitragem. Este ano, temos seis mudanças de decisão por rodada (ano passado, foram cinco). É um número alto quando comparado a padrões internacionais (três mudanças a cada dez jogos). A paralisação por conta da pandemia atrapalhou bastante o ritmo dos árbitros e também dos jogadores, que estão fazendo mais faltas, por exemplo. O VAR precisa ainda de alguns ajustes no que diz respeito a critério de chamada do árbitro. Mas isso não é só no Brasil, mas no mundo inteiro. A origem dos erros no Brasileirão não está no VAR, mas na falta de treinamento contínuo para os árbitros. Afinal, o VAR ganha outra dimensão quando o árbitro erra no campo. Não se pode exigir excelência de quem não treina diariamente no campo de jogo. Enquanto essa realidade da arbitragem brasileira não mudar, as consequências serão sentidas em campo.”, afirmou Sandro Meira Ricci, ex-árbitro, e hoje comentarista. A ausência de um treinamento contínuo referente ao uso do assistente de vídeo para a arbitragem é pra lá de prejudicial. Principalmente, porque o regulamento e suas especificidades interpretativas condicionam o uso do árbitro digital.

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