Suécia, parlamentarismo sem mordomias ou “Vossas Excelências”

Quando, semanas atrás, escrevi sobre as vantagens do sistema parlamentarista, uma das minhas fontes de informação foi o livro “Um País sem Excelências e Mordomias”, da jornalista Claudia Wallin, publicado pela editora Geração, em 2014. É um livro sobre a sociedade sueca: como vivem, como se organizam politicamente, como encaram a corrupção e os políticos; lá, onde o primeiro-ministro vai trabalhar de bicicleta; lá, onde os deputados vão ao parlamento de metrô… e o rei não tem poder algum. É um país avançado em todos os aspectos, mas o neoliberalismo das últimas décadas conseguiu produzir fissuras que podem ameaçar seriamente conquistas importantes como educação e saúde gratuita e de qualidade, o que estaria transformando a Suécia (Estado-previdência) num estado de “bem-estar privado”.
Segundo a autora, no reino da Suécia (Konungariket Sverige) não encontraremos regalias babilônicas. Na hierarquia do poder político, o presidente do parlamento está acima do primeiro-ministro e abaixo apenas do rei (protocolar). Ao contrário de outras democracias parlamentares, na Suécia, é o presidente do parlamento, e não o chefe de Estado, quem nomeia ou exonera o primeiro-ministro.
Claudia Wallin enfatiza que é indispensável saber que existe lá, no Círculo Polar Ártico, um lugar onde o fundamental exercício da política é conduzido predominantemente com integridade, ausência de privilégios anacrônicos e respeito ao dinheiro dos impostos dos cidadãos. Um país onde os deputados recebem cerca de 50% a mais do salário de um professor primário. Onde as políticas sólidas de boa gestão controlam continuamente o uso eficiente do dinheiro público e alimentam a confiança nas instituições públicas. Onde a sociedade fiscaliza e pune os desvios comportamentais dos poderosos. Uma sociedade transparente na qual a corrupção tornou-se a exceção, e não a regra.
O livro é mesmo uma reportagem sobre um país que aboliu os pronomes formais nos anos de 1960, e onde todos se tratam por você. Porque, assim reza a moral sueca, ninguém está acima de ninguém. Nem os políticos, que devem viver próximos da realidade do povo que os elege. Nem tampouco os juízes, que, sem abonos ou privilégios especiais, não almoçam à custa do dinheiro do contribuinte com obscenos auxílios alimentação atrelados a altos salários. O igualitarismo sueco se reflete na própria transparência do poder político, fiscalizado pela lei de transparência mais antiga do mundo.
Suécia: parlamentarismo, “socialismo”, democracia e ética.

FERNANDO MAGALHÃES
ASS. TÉC. DA ALECE

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