O autismo pode ter desenvolvimento genético variado ao longo do tempo.

Pesquisas recentes indicam que o Transtorno do Espectro Autista (TEA) não segue um único padrão de desenvolvimento. Um estudo revela que há pelo menos duas trajetórias distintas: uma que se manifesta ainda na primeira infância e outra que só passa a apresentar sinais mais claros durante a adolescência. As diferenças entre esses percursos estariam associadas a conjuntos específicos de variantes genéticas comuns.

A pesquisa foi liderada por Xinhe Zhan, do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, e acompanhou crianças e adolescentes por vários anos. Os dados mostraram que variantes genéticas relacionadas ao autismo se organizam em grupos distintos, influenciando o momento em que as dificuldades começam a aparecer ao longo do desenvolvimento.

Segundo os pesquisadores, um dos conjuntos genéticos está associado a sinais precoces, perceptíveis ainda nos primeiros anos de vida. Já outro grupo de variantes se relaciona a dificuldades que surgem ou se intensificam na adolescência, muitas vezes associadas a condições como o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e outros transtornos de saúde mental.

Para a bióloga Andréa Laurato Sertié, pesquisadora do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein, os achados ajudam a explicar por que muitos casos de autismo só são reconhecidos mais tarde. “Isso reforça a necessidade de estratégias individualizadas de diagnóstico e cuidado, capazes de identificar sinais que passam despercebidos na infância”, afirma.

O estudo também questiona o chamado “modelo unitário” do autismo, que interpreta o transtorno como um conjunto único de características, no qual o diagnóstico tardio seria apenas reflexo de sintomas mais leves. A nova hipótese sugere que o autismo identificado na adolescência ou na vida adulta pode representar um percurso de desenvolvimento diferente, e não apenas uma forma mais branda da condição.

O TEA é caracterizado por dificuldades persistentes na comunicação e na interação social, além de comportamentos restritos e repetitivos. Embora os sinais geralmente surjam na infância, eles não evoluem da mesma maneira em todas as pessoas. Essa diversidade levou especialistas a compreenderem o autismo como um espectro formado por múltiplas vias biológicas e desenvolvimentais.

Dados da Organização Mundial da Saúde estimam que cerca de uma em cada 127 pessoas no mundo esteja no espectro autista. Em países com sistemas de vigilância mais estruturados, como os Estados Unidos, a prevalência é ainda maior. No Brasil, o Censo 2022 identificou 2,4 milhões de pessoas que se declararam autistas, revelando maior detecção entre crianças e possível subdiagnóstico em adultos.

As causas do autismo ainda são amplamente estudadas, mas já se sabe que envolvem tanto variantes genéticas específicas quanto a combinação de centenas de variantes comuns. Esses fatores interagem com condições pré-natais e perinatais, como inflamação materna, prematuridade extrema e idade parental avançada, influenciando o risco individual.

Apesar dos avanços científicos, o diagnóstico do autismo ainda depende exclusivamente da avaliação clínica e do relato comportamental, já que não existem exames laboratoriais capazes de confirmar o transtorno. Isso contribui para diagnósticos tardios, especialmente em pessoas com sinais sutis na infância ou que desenvolvem estratégias de camuflagem social, fenômeno observado com mais frequência em mulheres.

Os autores do estudo defendem que compreender essas trajetórias distintas pode levar a classificações mais precisas dentro do espectro e a intervenções mais eficazes ao longo da vida. Para especialistas, reconhecer formas precoces e tardias de manifestação do TEA reforça a importância do acompanhamento contínuo e de abordagens personalizadas, capazes de atender às necessidades específicas de cada indivíduo em diferentes fases do desenvolvimento.

Leia também | Anvisa suspende venda de sal grosso e pó para decoração

Acontece Ceará

Veja Também!