Após meses de queda na produção industrial cearenses devido ao período de paralisação das atividades em decorrência à pandemia do novo coronavírus, a indústria já começa a apontar os primeiros sinais de recuperação e espera fechar o último trimestre com melhores resultados. Em entrevista ao jornal O Estado, o presidente da Fiec, Ricardo Cavalcante, aponta os principais desafios da indústria neste momento de retomada econômica.
Além do desabastecimento de algumas matérias-primas, principalmente na construção civil, Ricardo Cavalcante cita o acesso limitado ao crédito e a luta contra o desemprego.
O Estado. Como a Fiec está enfrentando este momento de pandemia?
Ricardo Cavalcante. Em janeiro, a indústria estava levantando voo após período de recessão. A indústria, dos 40 sindicatos da Fiec, 26 ficaram trabalhando (na quarentena) que, se não fosse por isso, as pessoas ficariam desabastecidas, e a população não sentiu isso. Foi uma coisa importante para a gente, porque mostrou que tínhamos capacidade de atender essas pessoas. Não faltou nenhum tipo de alimento. Na indústria, temos 400 mil colaboradores e estávamos trabalhando com 180 mil, que nunca pararam. Entre os que pararam estavam indústria têxtil, confecção, construção civil, calçados, ou seja, setores importantes para economia. Alguns setores ligados à alimentos, química, fármacos, esses não tiveram problemas, na verdade, cresceram. Depois, a gente voltou aos poucos e esse retorno foi com todos os protocolos feitos à nível internacional. Abriu-se a economia, gradativamente foi voltando todos os setores, mas nós temos problemas hoje.
OE. Quais os principais problemas atualmente?
RC. O desabastecimento. Várias empresas pararam e quando pararam, faltou matéria-prima. Está faltando ferro, cimento, várias coisas. No caso dos alimentos, falta embalagem. Para os calçados, falta o PVC. Funciona como uma cadeia, uma empresa fornece para outra, e várias pararam, mas isso é momentâneo. O aumento do preço em alguns casos, também, acho que depois de algum tempo vai se regular, o mercado vai crescer e as coisas se regulam, mas é um momento muito difícil agora. Tem empresas com muita dificuldades em adquirir matéria-prima para entregar seus produtos. Segundo, que diria o mais importante, o crédito. Está faltando crédito. O crédito está chegando, mas o governo limitou. O primeiro projeto do Pronampe, o governo pegava 30% do faturamento. Por exemplo, a empresa faturava R$ 1 milhão, em 2019, e o governo emprestava R$ 300 mil. Muita gente tomou, o governo também, acertadamente, lançou os R$ 600 (auxílio emergencial), porque a economia está funcionando e as pessoas estão consumindo. Então o Pronampe foi limitado a R$ 100 mil por empresa. Sobre os impostos, já saiu no Estado do Ceará o Refis, estamos esperando a Prefeitura e a União, porque seis meses parados, tem empresa que não gerou imposto, mas não tinha caixa para pagar.
Falo diariamente com os empresários e sindicatos e eles dizem que as coisas estão melhorando, e isso é um espetacular sinal. O outro ponto, é o desemprego. Temos quase 500 mil desempregados no Ceará, não merecemos deixar isso crescer. O desemprego só não aumentou porque o governo federal criou um pacote para cobrir a folha. O que vejo agora é a gente gerar emprego, porque se fala em desemprego a gente já vinha com o processo.
OE. Quais expectativas da reforma tributária para a indústria?
RC. O grande momento, agora, é a gente acreditar que essas reformas, administrativa e tributária, têm que sair sem aumento de cargas, esse é um dos grandes problemas pelo qual a gente tem lutado. Aqui, na Fiec, desde outubro do ano passado, criei uma comissão e a gente está estudando desde a MP 45 e a PEC 110, o governo também está fazendo algumas colocações, mas toda hora tem uma mudança e essa mudança faz com que a gente pague a conta – empresas e pessoas físicas. O governo não tem outra fonte de renda. Hoje, tem-se um levantamento de que pagamos quase 40% do PIB de impostos, então aumento de impostos não pode ter. O que precisa ter é justiça. Imposto, para mim, é igual mercadoria, quanto mais barato, mais vende. O governo faz o contrário, cobra muito e poucos pagam.
OE. Sobre a desoneração da folha, os empresários falam que se acabar vai piorar a situação, o que o senhor acha?
RC. A desoneração tem que ser muito bem pensada, porque em alguns setores a folha é muito importante, como os serviços, mas com a indústria já é diferente. O governo tem que explicar como vai ser isso, porque o grande problema é você dar uma ideia e não dizer como vai ser feito, então A diz uma coisa, B diz outra e C diz outra, e não diz como vai ser feito. A gente precisa ter noção de que reforma é essa para a gente poder opinar, porque você diz uma coisa hoje e na outra semana muda de novo. Imagina o empresário que tem cinco mil funcionários, e você chega e muda a regra de jogo. O empresariado precisa de uma certa garantia e estabilidade do que está se propondo. Essa Covid-19 desestruturou o mundo e deixou a China no comando, faltou tudo. Vários governos compraram respiradores e passaram três meses para receber. O mundo todo estava dependendo da China.
Nesse momento, a gente tem que ter a retomada da economia e nós, do setor industrial, temos que rever e se voltar para fazer uma grande industrialização para não depender tanto de fora. Coisas que podíamos fazer aqui, como os EPI’s, mas o chinês caiu na graça porque fazia mais barato.
OE. Desde o início da pandemia a Fiec liderou várias ações sociais, como a campanha Salvando Vidas, que arrecadou R$ 12 milhões para ajudar o governo no enfrentamento da Covid-19. Essas ações foram importantes para estabilização dos casos?
RC. Com a ação Salvando Vidas compramos EPIs, chamei o setor de confecção para produzir EPI’s. Fizemos câmeras de desinfecção, também fabricamos o Elmo (capacete respiratório). O Estado fez muito, o que a gente fez foi tentar procurar ajudar. Muitos empresários quiseram ajudar. Foi um momento muito importante, a gente ajudou, não tenho dúvidas, a diminuir o número de mortes.
OE. Para o fim do ano, as expectativas da indústria estão boas?
RC. Acredito que a gente vai ter um último trimestre bom. As coisas estão começando a acontecer, mesmo esse desabastecimento, a gente vai se adaptando. Quando se fala em PIB, o mundo todo parou. A análise do PIB depende do período, por exemplo, aqui no Ceará, entramos em março, abril e maio, e o pior mês foi maio, onde tivemos mais mortes, o PIB desse período vai lá no chão. A construção civil parada e as atividades que poderiam alavancar paradas, então o PIB baixa.
OE. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) apresentou uma proposta para parcelar as dívidas dos impostos. Como é essa proposta?
RC. A proposta da CNI, é que os impostos – que o governo adiou de maio para agosto, de junho para setembro, e julho para outubro – agora tem que pagar dois. Ninguém tem capacidade para pagar dois impostos, a gente quer parcelar os impostos desse período para frente, para poder diminuir a prestação e a gente poder pagar o do mês. Desde o começo eu dizia, que quando voltasse a economia era que os problemas iam começar a acontecer.
OE. O senhor esteve em Brasília onde fechou um acordo de cooperação técnica entre o Observatório da Indústria da Fiec e a Secretaria Especial de Produtividade, Emprego e Competitividade do Ministério da Economia. O que esse acordo representa?
RC. O Observatório da Indústria da Fiec é hoje o maior banco de dados do Nordeste e talvez do Brasil. Temos muita informação online, não temos planilha, é só clicar e acompanhar tudo. O Observatório passa qualquer informação da área econômica, de empregos, saúde, educação, cursos, tudo feito por inteligência artificial. A gente vinha trabalhando há uns cinco, seis meses e o Custo Brasil – que se perde, no paísl, R$ 1,5 trilhão por ano fazendo coisas que não precisam, ou seja, trabalhando indevidamente, e o Ministério da Economia chamou várias empresas e setores, e o primeiro acordo foi com a Fiec, porque temos a maior parte de dados que eles precisam. Hoje, o Observatório da Indústria é a maior arma que o empresário tem, eu quase triplicou o observatório em um ano e meio, porque a gente precisa de informação. A informação é a alma do negócio. Temos informações de todos os municípios do Ceará sobre o que precisar. Qualquer produto tem uma Nomenclatura Comum do mercosul (NCM) como se fosse um CPF, se nos der o número, sabemos quem produz no mundo, quem compra e o preço médio do dia no mundo.
Estamos fazendo essa transformação digital e acredito que seja a maior transformação das federações do Brasil, porque não estamos podendo trabalhar mais fora disso. O Observatório, hoje, é o sistema S de informação e o mercado está precisando. Fomos convidados pelo presidente da CNI para montarmos o Observatório Nacional em Brasília. Lá não tem, apenas o Paraná, mas não como o nosso. Estou chamando todos, porque informação e conhecimento é para a gente dividir.
OE. No próximo dia 24, a Fiec inaugura o Centro Internacional de Negócios, como irá funcionar?
RC. Estou fazendo com que o empresário, seja o pequeno, o médio, que venha exportar U$ 200, U$ 500, U$ 2 mil, mas que tenha 30 mil pessoas fazendo isso, porque é assim que o país vai crescer. Tanto posso comprar para transformar aqui, como posso exportar. O objetivo da gente é dar facilidade ao empresário saber qual o preço médio do produto dele. A gente quer estimular e que todos possam compreender, que comércio exterior é importante em qualquer lugar do mundo. Por que a Itália é rica? Porque tanto sabe comprar e vender internamente, como sabe vender lá fora, e nós precisamos fazer isso.
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