Não é de hoje que manifestações de racismo, sobretudo em jogos de futebol, e todos com o mesmo modus operandi: xingamentos por parte do agressor (criminoso) ao adversário (vítima) pelo o ofensivo “seu macaco”. Aqui e acolá há até arremessos de bananas em jogadores negros. A bola da vez, agora, foi Neymar Junior, que no último domindo (13), em partida contra o Olympique de Marshelha, o camisa 10 foi vítima de racismo ao ser chamado de “macaco” pelo rival Álvaro Gonzáles. O jogador reclamou do ocorrido e em represália deu um tapa na cabeça de Gonzáles vociferando: “Macaco, não!” Perguntando após o jogo se havia se arrenpendido, Neymar respondeu: “Me arrenpi de não ter dado um murro (soco) nele.”
O psicanalista francês Jacques Lacan provou que o significante precede o significado. Enquanto este é do outro, aquele é do sujeito. Então, temos diante do fato, duas interpretações. O significado (racismo) pertencente ao autor do ato, e o significante (repulsa) exclusivamente daquele que sofre a ação, no caso Neymar. A esse respeito, quando Daniel Alves, defendia as cores do Barcelona, teve uma banana arremessada contra si, mas diferentemente de outros atletas também vítimas de racismo, o jogador come o fruto como menosprezo ao desprezo do agressor.
Interessante é que alguns não poucos teólogos do mundo chegaram a postular que a mancha de Caim, uma espécie de pena pelo homicídio causado ao irmão, Abel, teria sido a negritude. É tanto, que a própria Igreja, à época da colonização do Brasil, por meio dos jesuítas (padres europeus), não intentou catequizar os negros, escravos africanos, justamente por acreditarem que esses não possuíam almas. A meu ver, desalmados são todos aqueles que, por qualquer motivo que seja, não aceitam as diferenças e, de maneira tresloucada, agem desarrazoadamente contra o outro, despejando seu veneno mortal.
Partindo do princípio que a Bíblia é um livro metafórico, quedo-me a pensar: será que o fruto proibido, que a serpente venonosa, capciosamente induziu a mulher (Eva) a comer, fora, de fato, uma maça? Não teria sido uma banana? Diante de fatos dessa natureza, chego a pensar que sim. Como o que distingue o humano dos demais seres é a razão, talvez Darwin estivesse certo ao dizer que o “homem” veio do macaco. Apenas uma ressalva: como projetamos no outro aquilo que somos, esses racistas, acostumados a atacar aos negros ou afrodescendentes pelo pejorativo xingamento, eivado de irracional ódio, de “macaco”, tenham sido a fonte inspiradora para a Teoria Darwiniana. Então, quem é o macaco (ser inumano) da História? Não teria sido a banana o fruto proibido?
ODAILSON DA SILVA
PSICANALISTA
E ESCRITOR
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