Em memória do amigo morto

Na manhã do dia 23 de setembro de 2020, um velho amigo deu o passo final na caminhada que leva à eternidade. Newton Pedrosa, com sua verve e bom humor próprio dos cabeças chatas, foi fazer cócegas (uma mania que ele tinha de brincar com os colegas) naqueles que já estão do “outro lado” e apresentar-se a Deus como correspondente dos que aqui ficaram a remoer as saudades em razão de sua partida. É certo que já estava em idade avançada e passava por sérios problemas de saúde. Mas, uma amizade sincera é sempre nova, porque permanentemente renovada pelo afeto e pelo respeito mútuo. Ademais é deveras doloroso perder amizades decepadas pelo fio afiado da foice de Tanatos. Conheci Newton Pedrosa no limiar dos anos 1980, quando ingressei por concurso de provas e títulos na Assembleia Legislativa do Ceará. Eu na alacridade de meus 23 anos; o Newton já estradeiro de muitas andanças, ex-secretário de Imprensa do governo Adauto Bezerra, com papel passado de jornalista respeitado, coluna diária no jornal Tribuna do Ceará, importante matutino do Estado, a comentar com acuidade e fina ironia os embates políticos no Parlamento cearense. Tinha assento no então todo poderoso Comitê de Imprensa da AL, do qual foi presidente. Era lá que diariamente nos encontrávamos para o bate-papo saudável. Saído do serviço militar, dei continuidade à escritura jornalística, que havia iniciado como correspondente da editoria de “Interior”, do jornal o POVO, então sob a coordenação do jornalista Antônio Viana. Passei a colaborar com aquele órgão de Imprensa escrevendo artigos semanais para o Caderno de Cultura, em virtude da militância literária, na condição de presidente do Clube dos Poetas Cearenses (1979/1981). Com efeito, o Newton já me conhecia nessa seara. O início da amizade, todavia, se formalizou com a intermediação do jornalista Laerte Bezerra, editor de Política do Tribuna, que me formulou convite para integrar sua equipe. Quase sempre, quando viajava, Newton me confiava a redação de sua coluna, posto que naquele tempo não havia as facilidades comunicacionais de hoje, em que as sessões plenárias são transmitidas ao vivo pela TV e outras mídias. Alegre, bem humorado, brincalhão, contador de causos e piadas, de logo, fiz-me simpatizante daquela figura que passei a admirar, sobretudo pelo fato de que a recíproca foi verdadeira, a ponto de colocar à minha disposição sua casa de descanso em Paracuru, onde passei quinze dias de inesquecível lazer. Participamos de vários episódios políticos na Casa do povo, entre os quais, um ocorrido quando eu exerci a presidência da Associação dos Servidores da Assembleia Legislativa e o presidente da Casa era o atual senador Cid Gomes, com quem tive duros confrontos. Certa feita, em 1996, fui protagonista de entrevero em que assomou a “educação impecável” do senhor Ciro Gomes, agastado com minha atuação independente na liderança da entidade que congrega os servidores da AL. Retruquei com a mesma “amabilidade” comportamental com que fui tratado pelo ex-governador, com quem convivera na AL ao tempo em que ele assumira o mandato de deputado como suplente do PDS. Naquele momento, somente uma testemunha estupefata diante do diálogo de “amabalidades”, estava sentada à minha frente: Newton Pedrosa. E quase caía para trás quando eu disse quem era o meu interlocutor. Depois ambos caímos na gargalhada.
Ao corpo do meu amigo desejo uma terra bem leve, pois o seu espírito brincalhão já está a fazer a alegria de muitos no outro plano. Deus certamente o recebeu com a mesma lhanesa e cordialidade com que o velho Newton tratava a todos. E que o Senhor das Luzes console os corações da família, em especial a viúva, a querida amiga Maria Elisa; o filho Antônio Augusto e as filhas, Ana Cristina e Maria Luísa.

BARROS ALVES
JORNALISTA, POETA E ASSESSOR PARLAMENTAR

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