Afrase que dá título a este artigo é do etnopsiquiatra francês François Laplantine. Baseado em seus pressupostos, podemos inferir que nossa cultura que tem como fulcro a competição cega, com fito de acumular o máximo possível de bens materiais. Essa é típica do Ocidente. Nesse, vale tudo, inclusive é a História de violência para roubar. Isso não fora privilégio exclusivamente do guerreiro de civilizações distantes, haja visto ser na cultura de nossa casa, onde o desejo de possuir é bem descrito, por exemplo, nos romances de Verga, quer seja para a propriedade quer seja para quaisquer outras coisas – até pessoas.
A ganância não faz parte de qualquer manual de psicodiagnóstico, mas sempre foi considerado um mal, um pecado mortal. Mais que uma maldição da psique, é um espírito do mal, incapaz de ser alcançado pelo alma dos gananciosos. O coração do avarento é frio e mal-aquecido por eventos de vida, sendo-lhe objeto de desejo exclusivamente, o que lhe possa auferir lucros, mensuráveis por sua contabilidade. O econômico se sobrepõe a tudo e a todos.
Assim, cada elemento é rentabilizado e convertido em seu equivalente, em dinheiro: quanto custa ter um filho? O que custa para casar? Quanto um doente? Quanto, ao final, é necessário para se ter uma vida boa? Nesse diapasão é que o avarento é uma figura bem estabelecida na cultura do consumo. Basta pensarmos em Molière ou o Senhor Scrooge de Dickens. Mas, é claro que seria ingênuo tentar encontrar esses personagens na sociedade de hoje, bem como a imaginação de seus autores entregou-no-las. Eles nada mais são que representações metafóricas, e fez aspectos caricatos ou elementos presentes em cada pessoa. Para pesquisar sobre a ganância, não devemos precipitadamente buscar um Scrooge de Scrooge, mas olhando para dentro de nós mesmos, nos pensamentos que associamos como condição de felicidade – a prosperidade material. A ganância nos ajuda a observar um erro comum, que fez tornar-se num clichê, pensar que a felicidade pode ser comprado ou possuída para sempre, colocando-o em prática.
Se o universo é composto de matéria e espírito simultaneamente, a ganância se expande e se expande no mundo da matéria, tornando-se absoluto, ilimitado, dominante. Espiritualidade acaba não tendo qualquer lugar, qualquer força. É uma espécie de único axioma, qual seja: “Você vale o que tem”. Dito doutra maneira, você é o que possui de bens. Dessa forma, a função da nova empresa – o modelo societal vigente – é incentivar o surgimento de um novo homem, cujo o personagem tem como estruturas, as seguintes qualidades: disposição de renunciar a todas as formas de ser em detrimento do ter, numa desvairada e cega busca pelo ter. postanto, ser ganancioso é o equivalente a negar quaisquer sentimentos de prazer derivado da troca e partilha com os outros. O amor não é possível em uma situação como esta. E mesmo a amizade é incapaz de desenvolver-se plenamente em um contexto desse. Tudo o que se requer é a espontaneidade de escravizados a cálculo de vantagem pessoal, transformando o ser em algo artificial, forçado e desagradável. Não faz muito tempo, quando uma pessoa encontrava-se em dificuldade, dizia-se: “Fulano está desorientado – a filosofia do oriente era o nosso guia”. Em dias atuais, a frase é: “Fulano está desnorteado – fazendo-se alusão aos Estados Unidos – a esfera econômica”. Como perguntou certa feita meu amigo Odailson: “E aí, você está desnorteado ou desorientado?”. Pense um pouco…
ROSSANA BRASIL KOPF
ADVOGADA
PSICANALISTA
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